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22/08/2007 14:26

A lógica do mau jornalismo

É importante entender os problemas que afligem a democracia brasileira. Tem-se um modelo político torto, onde sempre foram aceitas algumas regalias que, à luz da moral e dos bons costumes, eram indevidas. Mas que foram praticadas, mesmo por alguns dos políticos mais destacados e inatacáveis da história política do país.

Por exemplo, permitia-se ao político, ao final da campanha, utilizar as sobras dos financiamentos de campanha. Nem vem ao caso, mas poderia citar três dos maiores políticos brasileiros falecidos, de conduta ilibada, pais da redemocratização, de quem jamais se soube participar de negociatas, que nos anos 80, com as sobras de campanha, conseguiram melhorar de vida.

A questão das concessões públicas de rádio e televisão é outro ponto fundamental. No governo Sarney houve distribuição ampla e irrestrita a amigos do rei que, depois, negociaram com empresários a venda delas. Se não me engano, as primeiras concessões da Abril nasceram desse movimento. Sem contar a derrama promovida por Antonio Carlos Magalhães.

No governo FHC, Sérgio Motta pretendia atacar essa questão das concessões. Morreu, foi substituído por Pimenta da Veiga, que era o Hélio Costa de FHC.

Estou falando da parte mais visível da história, sem entrar nos grandes contratos de obras públicas, ou até de parlamentares que recebiam de lobistas para conseguir audiências de clientes (dos lobistas) com Ministros.

Denúncia seletiva

Tem-se, portanto, um amplo campo para investigar. Jamais colocaria a mão no fogo pelo Renan Calheiros. O problema da mídia é que passou a se valer desse manancial de irregularidades para jogar, para tomar parte no jogo, escolher os alvos e tentar se sobrepor ao poder político. A denúncia deixou de ser um fato jornalístico, visando o aprimoramento das instituições, para se transformar em arma de batalhas – algumas com grupos empresariais barra-pesadas

Esse é o problema. Por exemplo, em cada Ministério existem os “operadores”, as pessoas que conhecem tecnicamente os ralos por onde saem os recursos públicos. Esses “operadores” atuam em todos os governos, não têm cor partidária.

Marcos Valério era claramente um desses operadores, que serviu a Deus e ao diabo, operava no governo de FHC e continuou operando no governo Lula. Mas na hora de aprofundar as investigações, o que poderia ferir de morte esse esquema dos “operadores”, as investigações recuaram, porque não interessava ampliar as denúncias.

A Mendes Jr*

Tome-se o caso do tal lobista da Mendes Jr. A empreiteira é barra-pesada. No momento, por exemplo, tem uma demanda inacreditável contra a CHESF que, na última contagem, rondava a cada das dezenas de bilhões de reais – em cima de uma dívida atrasada que não chegava a US$ 75 milhões, nos anos 80. Denunciei essa história, fui processado pela Mendes Jr, tendo como advogado Miguel Reali Jr, ex-Ministro da Justiça. Algum jornal ou revista foi atrás desse escândalo? Não. A empresa utilizou os “direitos futuros” sobre essa ação para quitar dívidas com bancos públicos. Interessou à mídia? Não.

Mas quando se descobre que um lobista da Mendes Jr era avalista do amigo Renan Calheiros no aluguel do apartamento da amante. Sabe como sai na “Veja”?

”Na semana passada, VEJA descobriu uma intrigante sobreposição de fatos. Justamente no período em que Renan diz não ter provas dos pagamentos – antes de dezembro de 2005 – o lobista Gontijo surge em documentos como devedor solidário do presidente do Senado”. Toda essa trama intrigante para dizer que o sujeito era avalista no aluguel de um apartamento do amigo.

Uma das maneiras que a mídia tem para ser controlada é a observância de princípios jornalísticos. Saiu da linha, deixou de seguir princípios básicos de jornalismo, leva fogo. Aqui, por conta de um pacto absurdo, todos os abusos foram permitidos, todas as ficções toleradas, todas as “barrigas” e espumas repercutidas.

Essa avacalhação do jornalismo – em nome dessa falsidade incrível da “guerra santa” ideológica – abriu espaço para todo tipo de jogada. Significa que todos que praticam isso jogam? Não necessariamente. Mas uma parte joga, é pesada. E se esconde atrás da falta generalizada de critérios jornalísticos.

Dia chegará em que os veículos mais sérios, que embarcaram nessa aventura, perceberão o jogo que se armou em cima de um aval que eles mesmos acabaram dando a aventureiros.

enviada por Luis Nassif






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